A pergunta que recebo com mais frequência depois de “como ganhar nas apostas” é “tenho de pagar impostos sobre os meus ganhos?”. É uma pergunta legítima — e a resposta, para a maioria dos apostadores portugueses, é mais favorável do que imaginam. Mas a tributação das apostas em Portugal tem nuances que afectam indirectamente as odds que recebes, o retorno que obtens e a competitividade do mercado. E o Estado arrecadou 353 milhões de euros em impostos sobre jogo online em 2025, um aumento de 5,47% face ao ano anterior. Esse dinheiro vem de algum lado — e compreender de onde é essencial para qualquer apostador sério.

O Regime Fiscal: IEJO e Taxa Sobre o Volume

O imposto que incide sobre as apostas desportivas em Portugal é o IEJO — Imposto Especial de Jogo Online. Nas apostas desportivas à cota, o imposto é calculado sobre o volume de apostas, não sobre o lucro do operador. A taxa é de 8% sobre o total apostado (handle).

Esta estrutura é invulgar no contexto europeu. A maioria dos países europeus tributa os operadores sobre o GGR (Gross Gaming Revenue) — a receita bruta, ou seja, a diferença entre o total apostado e os prémios pagos. Portugal tributa sobre o volume, o que significa que o operador paga imposto sobre cada euro apostado, independentemente de ter ganho ou perdido dinheiro nesse evento.

Para o casino online, o modelo é diferente: 25% sobre o GGR. Mas nas apostas desportivas, a base é o volume. A receita total de apostas desportivas em Portugal atingiu 447 milhões de euros em 2025, com crescimento de apenas 3,23% face ao ano anterior — o menor de sempre. E os 353 milhões de euros em receitas fiscais do Estado vêm do conjunto de apostas e casino online.

Porque é que isto importa para o apostador? Porque o imposto sobre o volume é repercutido directamente nas odds. O operador precisa de cobrir o custo fiscal de 8% antes de pensar em margem de lucro. Se num mercado britânico (onde o imposto é sobre GGR) o operador pode oferecer odds com margem de 3-4%, em Portugal precisa de margem suficiente para cobrir os 8% de imposto mais a sua própria margem. É uma das razões pelas quais as margens em Portugal são estruturalmente mais elevadas do que noutros mercados europeus.

O Jogador Paga Impostos Sobre os Ganhos?

A resposta curta: não, na esmagadora maioria dos casos. Em Portugal, os ganhos de apostas desportivas obtidos em operadores licenciados pelo SRIJ não estão sujeitos a IRS. O imposto é pago pelo operador, não pelo jogador.

Esta é uma vantagem significativa para os apostadores portugueses em comparação com alguns outros países, onde os ganhos de jogo estão sujeitos a tributação em sede de IRS ou de imposto sobre rendimento. Em Portugal, o que ganhas é teu — líquido de impostos.

Há uma excepção teórica que vale a pena mencionar: se os ganhos de apostas desportivas constituírem a fonte principal de rendimento de uma pessoa e forem exercidos de forma regular e profissional, a Autoridade Tributária poderia, em teoria, considerar essa actividade como rendimento profissional. Na prática, este cenário é extremamente raro e não conheço casos documentados de apostadores individuais tributados nesta base em Portugal. Mas é uma zona cinzenta que vale a pena conhecer, especialmente para quem gere volumes muito elevados.

Um ponto crucial: esta isenção aplica-se exclusivamente a operadores licenciados pelo SRIJ. Ganhos obtidos em plataformas ilegais não estão ao abrigo desta estrutura fiscal, e qualquer protecção ou benefício associado ao regime regulado simplesmente não existe fora dele.

Como a Tributação Afeta as Odds em Portugal

Este é o aspecto que a maioria dos guias não aborda — e que tem implicações práticas directas na rentabilidade dos apostadores portugueses.

O imposto de 8% sobre o volume de apostas é um custo fixo para o operador em cada aposta. Num mercado com odds de 2.00, o operador recebe o stake e paga 8% desse valor em imposto antes de qualquer outra consideração. Para manter uma margem de lucro viável, o operador precisa de incorporar este custo nas odds — o que resulta em odds sistematicamente mais baixas do que as disponíveis em mercados com tributação sobre GGR.

No primeiro trimestre de 2025, a margem dos operadores em Portugal atingiu 23% — um valor descrito como “significativamente acima da média” pela APAJO. Embora a margem reflicta vários factores (concorrência, estratégia comercial, perfil dos apostadores), a tributação sobre o volume é uma das causas estruturais deste valor elevado.

Na prática, isto significa que o apostador português parte em desvantagem face a apostadores de outros mercados europeus. Um value bet que seria claramente rentável num mercado com margens de 3-4% pode ser marginal ou negativo em Portugal, onde a margem embutida é substancialmente maior. Esta realidade obriga o apostador português a ser mais selectivo, mais disciplinado e mais rigoroso na identificação de valor — porque a barreira para superar a margem é mais alta.

Existe um debate sobre se este modelo fiscal é o mais adequado. Os operadores, através da APAJO, têm argumentado que a tributação sobre o volume desincentiva a competitividade e empurra apostadores para o mercado ilegal — onde 40% dos jogadores portugueses continuam a apostar. O argumento é que odds mais competitivas (possíveis com tributação sobre GGR) reduziriam a migração para plataformas ilegais.

Para o apostador individual, o modelo fiscal não é algo que possas mudar. O que podes fazer é reconhecer o seu impacto: as odds em Portugal são estruturalmente menos competitivas, a margem é mais alta, e o limiar para ser rentável é mais exigente. Esta é mais uma razão para apostar com disciplina, comparar odds sistematicamente e focar-te em mercados onde o teu edge é suficiente para superar a margem inflacionada. É esse o percurso que descrevo no guia sobre como ganhar nas apostas desportivas.

Os ganhos em apostas desportivas são tributados ao jogador em Portugal?
Não. Em Portugal, os ganhos de apostas desportivas em operadores licenciados pelo SRIJ não estão sujeitos a IRS. O imposto (IEJO) é pago pelo operador sobre o volume de apostas, não pelo jogador sobre os ganhos. Esta isenção aplica-se apenas a operadores licenciados — ganhos em plataformas ilegais não estão protegidos por este regime.
Como a tributação portuguesa afeta as odds comparadas com outros países europeus?
Portugal tributa os operadores sobre o volume de apostas (8%), não sobre o lucro. Este custo é repercutido nas odds, que são estruturalmente menos competitivas do que em mercados como o britânico, onde o imposto recai sobre a receita bruta. O resultado é margens mais elevadas para o apostador português, exigindo maior selectividade e rigor na identificação de valor.